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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Sobre voar

Aproveitei sua corrente térmica.
Seu calor me fez subir em espiral até as nuvens.
Me tornei o pássaro que achei que era.

Rebatimento

Porque eu choro?

Não, não é porque eu te perdi.

É porque tenho me ganhado a duras penas.

Lhe uso no processo

Você me rebate

Correr atrás de se capturar solto na vida é doloroso e cansativo.

Mas é difícil aprender e apreender

Daí rapidamente a gente se joga e depois pensa

Depois sofre, se preocupa, se esfola

E novamente busca se capturar

Mete-se em um verdadeiro jogo olímpico das relações interpessoais.

Questão de prioridade

Naquela noite dormir parecia um processo difícil. Havia cansaço, havia sono. Mas havia uma prioridade imensa em pensar, pensar em tudo.

Formigas

Era meio dia, mas parecia fim de tarde. A luz solar de tão baixa fez ascender as lâmpadas dos postes. A manhã escureceu. Nuvens iam carregadas e baixas sobre os montes e serras. Estava úmido, quente e sem ventos. O dia estava estático, não distante da estática elétrica. A cidade era a mesma em qualquer clima. Me senti mais uma das formigas operárias. Tudo era aparentemente estanque, cotidiano, comum. Me preocupava carregar a latência dos acontecimentos do acaso e das sensações. Me questionava se essa latência existia ou incomodava as outras pessoas-formigas da cidade.

O fato é que a aparência conservava a superfície das formigas que éramos. A aparência da utilidade, da importância, da necessidade e da concentração. Nada seria mais correto que ser prático. A praticidade apresentava rachaduras em minha superfície de formiga. Abstração e imaginação minavam pelas frestas. Pulsavam pensamentos aprisionados, traumatizados, contundidos. A praticidade estava ameaçada. Outras formigas não ousaram perceber alterações. Era difícil encontrar outras formigas com frestas que permitissem a soltura para o desconforto e percepção.